A propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão começou nesta sexta-feira, 28 de agosto, e segue até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno das eleições gerais de 2026. Por 35 dias, partidos, federações e coligações vão disputar a atenção de mais de 158 milhões de eleitores diretamente na programação diária das emissoras com concessão pública.
Este texto explica como funciona a distribuição do tempo, quanto cada presidenciável vai receber e por que alguns candidatos ficaram de fora dos blocos em rede nacional.

Como funciona a propaganda em dois formatos
O horário eleitoral gratuito é dividido em dois formatos complementares, e cada um cumpre uma função diferente na estratégia de comunicação das campanhas.
Programas em bloco. São exibidos em rede nacional, com escala alternada entre os cargos em disputa: presidente da República, governador, senador e deputados federais, estaduais ou distritais. Na primeira semana, por exemplo, o dia de estreia, nesta sexta, foi reservado a candidatos ao Senado, a governador e a deputado estadual, enquanto os presidenciáveis e os candidatos a deputado federal entraram no ar apenas a partir deste sábado, 29 de agosto.
Inserções comerciais. São peças curtas, de 30 ou 60 segundos, distribuídas ao longo da programação diária das emissoras, entre 5h e a meia-noite. As emissoras precisam reservar 70 minutos diários da grade para esse formato, o que garante presença constante das campanhas mesmo fora dos blocos principais.
Vale destacar que propaganda eleitoral paga no rádio e na televisão continua proibida. Toda a exposição nesses veículos, portanto, depende exclusivamente da distribuição de tempo gratuito definida pelo TSE.
Quanto tempo cada presidenciável vai ter
O Tribunal Superior Eleitoral divulgou, em 20 de agosto, a distribuição do tempo entre os candidatos à Presidência. Cada bloco diário reservado à disputa presidencial tem 12 minutos e 30 segundos, repartidos da seguinte forma:
- Lula (PT), pela coligação Brasil Pronto pra Mais: 5 minutos e 31 segundos diários. A chapa reúne sete legendas: PT, PCdoB, PV, PSB, PDT, PSOL e Rede.
- Flávio Bolsonaro (PL): 4 minutos e 20 segundos diários. Mesmo sem coligação formal, o candidato garantiu o segundo maior tempo por conta do tamanho da bancada do PL na Câmara.
- Ronaldo Caiado (PSD): 2 minutos e 2 segundos diários.
- Augusto Cury (Avante): 35 segundos diários.
Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão), apesar de estarem entre os candidatos com registro deferido, não têm direito a tempo nos blocos em rede nacional. O mesmo vale para os demais presidenciáveis. A ausência desses nomes não representa uma decisão arbitrária da Justiça Eleitoral, mas sim resultado direto da fórmula prevista em lei.
Por que apenas quatro candidatos aparecem nos blocos
A distribuição do tempo segue um critério objetivo, definido pelo artigo 55 da Resolução TSE nº 23.610/2019. Nesse cálculo, 90% do tempo total é repartido de forma proporcional ao número de deputados federais eleitos por cada partido, federação ou coligação. Os 10% restantes são divididos igualmente entre as legendas que cumprem os requisitos mínimos estabelecidos pela chamada cláusula de desempenho.
Na prática, isso significa que o acesso ao horário eleitoral gratuito depende, sobretudo, da força parlamentar do partido na Câmara dos Deputados, e não diretamente do desempenho do candidato nas pesquisas de intenção de voto. É por isso que candidaturas com baixa representação partidária, mesmo que tenham alguma visibilidade nas ruas ou nas redes sociais, ficam sem espaço nos blocos em rede.
As inserções, no entanto, seguem lógica semelhante. A coligação de Lula, por exemplo, terá 433 inserções ao longo dos 35 dias, seguida pelo PL, com 339, o PSD, com 159, e o Avante, com 47.
A ordem de exibição e o sistema de rodízio
No primeiro dia de veiculação da propaganda presidencial, a ordem de exibição foi definida por sorteio realizado pelo TSE. Coube ao Avante abrir a programação, seguido por PSD, PL e, por último, a coligação de Lula.
A partir do segundo dia, no entanto, as legendas passam a seguir um sistema de rodízio diário, o que garante que nenhuma campanha permaneça sempre na mesma posição dentro do bloco. Essa alternância é importante porque a ordem de exibição pode influenciar, ainda que discretamente, a atenção do eleitor, já que os primeiros minutos de qualquer bloco tendem a reter mais audiência do que o restante do tempo.
O que muda com a chegada da propaganda em rede
Até 28 de agosto, a disputa eleitoral se concentrava, sobretudo, nas ruas e no ambiente digital. A partir de agora, contudo, a propaganda em rede nacional amplia de forma significativa o alcance das campanhas, já que rádio e televisão ainda chegam a públicos que redes sociais não atingem com a mesma intensidade, especialmente entre eleitores mais velhos e em regiões com menor acesso à internet.
Por isso, especialistas em comunicação eleitoral costumam considerar essa data como o verdadeiro início da disputa nacional pela opinião pública, mesmo que a campanha, tecnicamente, já estivesse em curso desde 16 de agosto.
As novas regras de inteligência artificial no horário eleitoral
O início da propaganda em rede também trouxe reforço nas regras sobre uso de inteligência artificial em peças de rádio e TV, tema que já vinha sendo debatido durante toda a fase de convenções.
Fica proibida a utilização de conteúdo sintetizado por IA para criar, alterar ou clonar voz e imagem de pessoas reais com o objetivo de difundir declarações falsas ou descontextualizadas. Por outro lado, o uso de inteligência artificial em recursos como computação gráfica ou tratamento de áudio continua permitido, desde que haja aviso claro, explícito e acessível informando que aquele conteúdo foi processado por tecnologia.
Essa exigência de identificação vale igualmente para peças exibidas nos blocos em rede e para as inserções mais curtas, o que amplia a fiscalização da Justiça Eleitoral sobre um formato que, até então, concentrava menos debate sobre desinformação do que a propaganda na internet.
O que esperar das campanhas na TV e no rádio
Com o tempo desigual entre os candidatos, cada campanha tende a adotar estratégias de comunicação adaptadas ao espaço disponível. Lula, com o maior tempo entre os presidenciáveis, deve explorar tanto a biografia política quanto propostas específicas, aproveitando a extensão do bloco para desenvolver argumentos mais longos. Flávio Bolsonaro, em segundo lugar, tende a concentrar a comunicação em mensagens mais diretas, já que seu tempo, embora expressivo, é mais restrito.
Caiado e Cury, com blocos significativamente menores, provavelmente vão priorizar frases de efeito e apresentação rápida de propostas centrais, uma vez que a curta duração impede o desenvolvimento de argumentação mais extensa dentro do próprio bloco.
Um novo capítulo da corrida eleitoral
A chegada da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV marca uma escalada natural na disputa presidencial de 2026. Com o tempo desigual definido pela representação parlamentar, o desafio para os candidatos com menos minutos disponíveis será compensar essa limitação com criatividade na produção de conteúdo e maior aproveitamento simultâneo dos canais digitais, ainda que estes já estivessem em uso desde o início da campanha.
Até 1º de outubro, portanto, o eleitor brasileiro vai acompanhar diariamente, na TV e no rádio, um retrato cada vez mais detalhado das propostas e estratégias de cada candidatura, num período que tende a concentrar boa parte das decisões de voto ainda indefinidas.

