A campanha presidencial de 2026 chega à sua semana decisiva sob um clima de tensão que poucos analistas previam há poucos meses. Com o primeiro turno marcado para o próximo domingo, 4 de outubro, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) se transformou, nos últimos dias, numa guerra de narrativas envolvendo religião, decisões judiciais conflitantes e acusações mútuas de má-fé.

O “caso Nossa Senhora” e a escalada da desinformação
A polêmica que dominou a semana começou de forma quase acidental. Publicações nas redes sociais passaram a associar Flávio Bolsonaro a um suposto plano de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A acusação se apoiava num projeto de lei arquivado pelo Congresso ainda em 2007, sem qualquer relação direta com a candidatura atual do senador.
Ainda assim, o boato ganhou tração acelerada. Segundo o Instituto Democracia em Xeque, o episódio já soma mais de 2,39 milhões de menções nas redes sociais, tornando-se a quarta maior repercussão política do ano no ambiente digital.
A reação da campanha de Flávio, no entanto, é apontada por aliados como um erro estratégico. Em poucos dias, o candidato gravou vídeos de resposta, acionou a Justiça, mobilizou lideranças religiosas e chegou a acusar integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de colaborar com a disseminação da informação falsa. A entidade reagiu publicamente, e o que era uma crise de desinformação se transformou, segundo interlocutores do próprio PL, em um confronto direto com um braço da Igreja Católica, o que ampliou o desgaste em vez de contê-lo.
O episódio ainda gerou disputa no campo jurídico. O ministro André Mendonça, do TSE, determinou a remoção de publicações associadas ao caso, incluindo um post do humorista Antonio Tabet. Dias depois, o ministro Flávio Dino suspendeu essa decisão, sob o argumento de que a medida ameaçava a liberdade de expressão. Em seguida, o ministro Luiz Fux, do STF, restabeleceu a determinação original, atendendo a um pedido da defesa do candidato. O plenário virtual do TSE julgou o impasse nesta quarta-feira, 30 de setembro, evidenciando como a fiscalização de conteúdo digital se tornou um dos principais campos de batalha desta eleição.
Enquanto isso, a campanha de Lula soube aproveitar o momento. O presidente passou a erguer imagens de Nossa Senhora em atos de campanha, recebeu representações da santa em pelo menos duas ocasiões na última semana e levou o tema para a propaganda eleitoral gratuita, classificando como “inaceitável” qualquer desrespeito a religiosos por interesse eleitoral.

Guerra de costumes ganha outra frente
O confronto não parou na esfera religiosa. Em outra ponta da disputa, apoiadores de Flávio Bolsonaro passaram a explorar uma fala do próprio Lula sobre exames ginecológicos em mulheres e meninas, ampliando o que a imprensa já vem chamando de “arena do vale-tudo” da campanha. A poucos dias do primeiro turno, comícios e redes sociais concentram cada vez mais energia em polêmicas de costumes do que em propostas de governo propriamente ditas, o que preocupa parte dos analistas eleitorais.
A repercussão internacional não demorou a chegar. A Bloomberg publicou reportagem descrevendo o episódio como um “novo e improvável campo de batalha” na eleição brasileira, destacando que a controvérsia se soma a outras crises que já marcavam a campanha, como o escândalo do Banco Master e os atritos internos recentes no Supremo Tribunal Federal.
O que dizem as pesquisas mais recentes
Apesar da turbulência, as pesquisas eleitorais mais respeitadas do país mostram um cenário de relativa estabilidade nas últimas semanas, ainda que apertado.
No levantamento do Datafolha, divulgado em 24 de setembro, Lula aparece com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. A distância de quatro pontos está no limite da margem de erro, que é de dois pontos para mais ou para menos. Em um eventual segundo turno, os dois candidatos permanecem em empate técnico: 47% a 45%.
A Quaest, em pesquisa divulgada em 28 de setembro, mostra números parecidos, embora com margem um pouco mais ampla para o presidente: 39% a 34% no primeiro turno. No cenário de segundo turno, no entanto, o instituto aponta empate exato, com 42% para cada candidato.
Os demais nomes seguem distantes da briga principal. Augusto Cury (Avante) oscila entre 4% e 6%, Ronaldo Caiado (PSD) aparece com 4%, e Renan Santos (Missão), com 3%. Romeu Zema (Novo) não passa de 1% em nenhum dos levantamentos recentes.
Um dado chama atenção especial nas pesquisas: o alto grau de cristalização do eleitorado. Segundo o Datafolha, 80% dos eleitores já se declaram totalmente decididos sobre o voto para presidente, o que reduz o espaço de manobra das campanhas na reta final e explica, em parte, por que ambos os lados apostam tanto na mobilização de bases já fiéis, em vez de tentar conquistar eleitores indecisos.
A pesquisa também revela a força de recortes sociais específicos. Entre beneficiários do Bolsa Família, Lula tem 52% das intenções de voto contra 27% de Flávio Bolsonaro. Já no Sul do país e entre evangélicos, é o candidato do PL quem lidera com folga, atingindo 47% em ambos os grupos.
Por que a disputa apertada importa para a democracia
Independentemente do resultado que as urnas vão revelar no próximo domingo, o cenário atual da campanha presidencial de 2026 ilustra um desafio que vai muito além desta eleição específica: a fragilidade da informação em ambiente digital e o risco real que boatos, mesmo sem qualquer fundamento factual, representam para o debate público.
O episódio da padroeira do Brasil mostra como uma notícia falsa pode, em poucos dias, redefinir a agenda de uma campanha inteira, obrigando candidatos a gastar energia e tempo escasso respondendo a acusações fabricadas, em vez de debater propostas concretas de governo. Ao mesmo tempo, a judicialização acelerada do conflito, com decisões e contradecisões entre ministros do TSE e do STF em questão de dias, reforça a importância de instituições fortes e independentes para garantir que o processo eleitoral continue confiável, mesmo sob pressão.
A democracia brasileira, ainda jovem se comparada a outras democracias consolidadas, tem demonstrado resiliência diante de crises sucessivas nos últimos anos. Eleições disputadas, pesquisas dentro da margem de erro e embates acirrados fazem parte, sim, do jogo democrático saudável. O que não pode fazer parte, contudo, é a naturalização da desinformação como ferramenta legítima de disputa política. Cabe ao eleitor, informado e crítico, e às instituições, vigilantes e ágeis, garantir que o voto de domingo reflita, de fato, a vontade popular, e não o resultado de uma narrativa manipulada.

