Um campo de disputa simbólica, não de relações públicas
Há uma confusão produtiva — e ao mesmo tempo nociva — que persiste na prática e na teoria da comunicação política brasileira: a tendência de tratá-la como sinônimo de assessoria de imprensa, como extensão do marketing comercial ou, pior, como um conjunto de técnicas de manipulação da opinião pública. Nenhuma dessas aproximações é inteiramente errada, mas todas são insuficientes para compreender o que está em jogo quando um governo, um candidato ou uma instituição política escolhe como se comunicar.
Comunicação política é, antes de qualquer coisa, disputa simbólica. É o campo em que sentidos sobre o mundo social são produzidos, contestados e sedimentados. Quem define o que é um problema público, quem nomeia o inimigo, quem estabelece o vocabulário do debate — esses atores exercem poder real, independentemente de quantos votos controlam ou de qual cargo ocupam.
Comunicar politicamente não é explicar o que se fez. É construir a percepção do que se fez — e por que isso importa.

O campo: entre ciência e prática
A comunicação política como campo disciplinar se consolida a partir dos anos 1950, com o desenvolvimento dos estudos de campanha eleitoral nos Estados Unidos. Nomes como Harold Lasswell, Paul Lazarsfeld e, mais tarde, Murray Edelman e Murray Gell-Mann contribuíram para estabelecer que a política não existe fora da linguagem que a constitui. Não há política sem narrativa sobre a política.
No Brasil, o campo ganhou densidade institucional sobretudo a partir da redemocratização. A profissionalização das campanhas eleitorais — acelerada com a introdução do horário eleitoral gratuito em rádio e televisão — criou uma demanda prática por especialistas em comunicação política, antes que houvesse formação acadêmica consolidada para atendê-la. O resultado foi uma prática que correu à frente da teoria, com todas as virtudes e todos os vícios que isso implica.
Três dimensões que precisam ser distinguidas
Para trabalhar com comunicação política com precisão, é necessário separar três dimensões que frequentemente se confundem na prática:
A primeira é a comunicação de governo — aquela produzida por quem já exerce o poder. Seu objetivo central é produzir legitimidade: demonstrar que as decisões tomadas são corretas, necessárias ou pelo menos compreensíveis. Quando um ministério publica um relatório de prestação de contas, quando um governador convoca coletiva para anunciar uma política pública, quando uma prefeitura veicula campanha sobre vacinação — tudo isso é comunicação de governo. Seu parâmetro de qualidade não é a persuasão, mas a transparência democrática aliada à eficácia informativa.
A segunda é a comunicação eleitoral — aquela produzida em contexto de disputa pelo poder. Aqui as regras são outras: o ambiente é de competição explícita, o adversário existe e precisa ser considerado, e o eleitor é simultaneamente o objeto da comunicação e o árbitro do processo. A literatura internacional chama esse conjunto de práticas de campanha profissional ou de marketing político, mas os dois termos obscurecem mais do que iluminam. Uma campanha bem-sucedida não é aquela com o melhor jingle — é aquela que leu corretamente o contexto, definiu o terreno da disputa e mobilizou as motivações certas no momento certo.
A terceira é a comunicação de oposição e de movimentos sociais — aquela produzida por quem busca influenciar o poder sem exercê-lo diretamente. Partidos na oposição, sindicatos, movimentos sociais, think tanks, entidades de classe — todos produzem comunicação política com lógicas próprias, que não se reduzem nem à comunicação governamental nem à eleitoral.
Confundir essas três dimensões é o erro mais comum — e mais caro — que assessores cometem ao migrar de um contexto para outro.
O caso recente: a disputa narrativa nas eleições de 2022
A eleição presidencial de 2022 oferece um laboratório privilegiado para observar as três dimensões em funcionamento simultâneo e em conflito aberto. O governo Bolsonaro utilizou a máquina estatal de comunicação — ministérios, redes sociais oficiais, eventos públicos — de forma deliberadamente eleitoral, dissolvendo a fronteira entre comunicação de governo e comunicação eleitoral. Isso não foi um acidente operacional: foi uma estratégia que, ao mesmo tempo em que gerava vantagens táticas de curto prazo, corroía a credibilidade institucional das fontes governamentais.
A campanha Lula, por sua vez, enfrentou o desafio inverso: comunicar a partir de fora do poder institucional, com um candidato que carregava alta rejeição em determinados segmentos, em um ambiente saturado de desinformação. A resposta foi uma escolha narrativa deliberada de ancoragem no passado — “o Brasil que já foi” — combinada com um trabalho intenso de segmentação por público. O resultado eleitoral foi estreito, mas a análise das estratégias revela decisões sofisticadas que merecem estudo independentemente do resultado.
O que 2022 demonstrou, acima de tudo, é que a comunicação política no Brasil já opera em um ecossistema de mídia radicalmente diferente do que existia há vinte anos. Plataformas digitais, grupos de WhatsApp, criadores de conteúdo independentes e redes de desinformação são agora atores com poder de pautar o debate — às vezes mais do que veículos tradicionais de imprensa.
O que isso significa para quem trabalha no campo
Para o profissional que atua em comunicação política — seja como assessor, consultor, coordenador de campanha ou gestor de comunicação governamental — as implicações práticas são claras.
Primeiro: a distinção entre os três contextos (governo, campanha, oposição/movimento) não é apenas conceitual. Ela define quais ferramentas são legítimas, quais métricas de sucesso fazem sentido e, no caso do servidor público, quais são as fronteiras éticas e legais da atuação.
Segundo: comunicação política eficaz começa por diagnóstico, não por produção de conteúdo. Antes de decidir o que dizer e como dizer, é preciso compreender qual é o problema comunicativo real — que pode ser muito diferente do problema que o cliente ou o chefe acredita estar enfrentando.
Terceiro: o domínio técnico das plataformas é necessário, mas não suficiente. Um assessor que sabe produzir vídeo vertical para Reels mas não entende como frames narrativos funcionam na construção de sentido político é um operador, não um estrategista.
A diferença entre operar e estrategizar é o que este espaço se propõe a explorar — em cada seção, em cada artigo, em cada análise de caso.


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