Mais de 120 deputados trocaram de partido em 30 dias. O PL chegou a 100 cadeiras, o PDT perdeu mais da metade de sua bancada e o União Brasil amargou a maior sangria. Leia o que os números dizem
A janela partidária de 2026 encerrou em 3 de abril com uma movimentação que superou as expectativas de analistas e lideranças partidárias. Ao menos 120 dos 513 deputados federais trocaram de partido durante o período de 30 dias — algo próximo de 23% da Câmara inteira. Somando as trocas realizadas antes da janela por meio de acordos bilaterais entre legendas, o número de movimentações fica ainda maior.
Os dados finais ainda devem passar por pequenos ajustes, pois parte das trocas de última hora pode não ter sido comunicada ao sistema da Câmara até o fechamento do prazo. Mas o quadro geral já está claro o suficiente para análise — e revela muito sobre as forças que vão disputar outubro.

Os números: quem ganhou, quem perdeu
O PL foi o maior beneficiado da janela. A legenda do senador Flávio Bolsonaro (RJ), que chegou à legislatura com 99 deputados mas havia encolhido para 87 ao longo dos últimos anos, recuperou terreno e fechou o período com cerca de 100 cadeiras — a maior bancada da Câmara. O saldo positivo de aproximadamente 13 deputados restabelece a posição de comando que o partido tinha no início do mandato e reforça a estrutura eleitoral de quem deve ser o principal candidato de oposição à Presidência.
O Podemos foi a segunda legenda que mais cresceu em termos absolutos, chegando a cerca de 26 deputados — um crescimento de aproximadamente 10 cadeiras. O PSDB, que muitos analistas já davam como partido em extinção, aproveitou a janela para uma recuperação relevante e chegou a 17 ou 19 representantes (os números variam conforme a fonte), sinalizando que a sigla ainda tem capacidade de atrair quadros que buscam estrutura consolidada sem disputar espaço nas grandes bancadas.

O caso PDT: a maior perda proporcional
Se o PL foi o grande vencedor em termos absolutos, o PDT foi, proporcionalmente, o maior derrotado. A legenda, que havia elegido 16 deputados federais em 2022, encerrou a janela com apenas 6 parlamentares, uma redução de mais de 60% de sua bancada federal em um único período de troca.
No Ceará, o impacto foi ainda mais dramático: o partido, que havia elegido cinco deputados federais pelo estado em 2022, saiu da janela com apenas um representante na Câmara, André Figueiredo. Idilvan Alencar, Leônidas Cristino e Robério Monteiro migraram para o PSB, enquanto Mauro Filho articulou ida ao União Brasil.
A hemorragia do PDT não é fenômeno novo. O partido vem perdendo quadros desde o distanciamento de Ciro Gomes da liderança efetiva da sigla. Mas a janela de 2026 acelerou e consolidou esse processo de forma que dificilmente será revertida nas próximas eleições.
A janela partidária não cria tendências — ela as revela. O que aconteceu com o PDT, o União Brasil e o PSDB já estava escrito nos bastidores. A janela apenas tornou público o que era silencioso.
O União Brasil e o dilema das fusões
O União Brasil, criado a partir da fusão entre DEM e PSL em 2022, registrou a maior perda absoluta em número de deputados: saiu de 59 para cerca de 44 ou 51 cadeiras, dependendo da fonte — as variações refletem a dificuldade de consolidar os dados em tempo real. De qualquer forma, trata-se de uma sangria significativa para uma legenda que começou a legislatura como terceira maior bancada da Câmara.
A saída mais emblemática foi a de Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS, que deixou o União Brasil para se filiar ao PL. O movimento concentra em si toda a lógica da janela: o parlamentar que mais visibilidade nacional ganhou nos últimos meses escolheu o partido do candidato presidencial que lidera as pesquisas de oposição. Não foi uma escolha ideológica — foi uma aposta eleitoral.
O PT e a estabilidade estratégica
O PT encerrou a janela praticamente estável, com 66 ou 67 deputados — uma saída confirmada foi a da deputada Luizianne Lins (CE), que deixou o partido após 37 anos para se filiar à Rede. A estabilidade da bancada petista não é acidental: em um cenário de polarização consolidada, parlamentares da base do governo têm pouco incentivo para migrar. A escolha seria entre ficar com o partido do presidente ou ir para legendas que se posicionam explicitamente contra ele — e o custo político dessa migração é alto.
O PSD de Kassab também saiu estável ou levemente positivo, a depender da versão dos dados: perdeu e atraiu um número semelhante de deputados, mantendo-se próximo de 47 ou 54 cadeiras. Para a estratégia do partido — que tenta montar uma candidatura presidencial própria enquanto mantém interlocução com os dois campos —, a estabilidade é o resultado politicamente correto.
O que os movimentos regionais revelam sobre outubro
Além das movimentações nacionais, a janela produziu redesenhos relevantes nos estados que merecem acompanhamento. Em Pernambuco, a governadora Raquel Lyra (PSD) saiu da janela com maioria consolidada na Assembleia Legislativa, reunindo 35 dos 49 deputados estaduais — uma virada que lhe dá conforto legislativo para o segundo semestre do ano eleitoral.
Na Paraíba, 18 dos 36 deputados estaduais mudaram de partido — metade da Assembleia. O PSB, do ex-governador João Azevêdo, foi o partido que mais perdeu, caindo de seis para dois deputados estaduais. A reconfiguração sinaliza que a disputa pelo governo estadual, com o governador Lucas Ribeiro (PP) tentando reeleição, terá dinâmica própria e independente do cenário nacional.
Nos estados, a lógica é ainda mais transparente do que em Brasília: parlamentares escolhem o partido de acordo com o palanque majoritário local — governador, senador ou candidato a governador — muito mais do que com base em afinidade ideológica ou alinhamento presidencial.
O que a janela não muda — e o que vem a seguir
É importante registrar o que a janela não altera: a divisão do fundo eleitoral entre os partidos, que é calculada com base no desempenho das legendas nas eleições anteriores — ou seja, nos votos de 2022 —, não muda automaticamente com as trocas de deputados. Uma bancada maior dá mais poder de negociação, mas não necessariamente mais dinheiro de campanha no curto prazo.
Com o encerramento da janela, o calendário eleitoral entra em nova fase. O foco dos partidos volta-se agora para as convenções partidárias, que ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto. É nesse período que os candidatos serão oficialmente escolhidos, as coligações serão formalizadas e o quadro das chapas — para presidente, governadores, senadores e deputados — tomará sua forma definitiva.
A janela mostrou onde estão as forças. As convenções vão mostrar como essas forças pretendem se organizar para outubro.


Deixe um comentário