Março de 2026 trouxe as primeiras pesquisas presidenciais relevantes do ano — e com elas, o risco habitual de que números de intenção de voto a sete meses da eleição sejam lidos como prognóstico em vez de retrato. O Real Time Big Data, divulgado em 3 de março e encomendado pela Record, e o Datafolha, divulgado neste sábado 7 de março pela Folha de S.Paulo, oferecem juntos o mapa mais completo do ambiente eleitoral no início do ciclo. O trabalho analítico é entender o que cada número mede de fato — e o que ainda não está sendo medido.
A primeira leitura é simples: Lula lidera. No Real Time Big Data, o presidente aparece com 39% no primeiro turno contra 32% de Flávio Bolsonaro. No Datafolha, em eventual segundo turno entre os dois, Lula aparece com 46% e Flávio com 43% — empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. A segunda leitura, mais importante, é que esse empate técnico em março de 2026 não é o mesmo empate técnico que existia entre Lula e Jair Bolsonaro em março de 2022. O contexto é radicalmente diferente, os candidatos são diferentes e a composição do eleitorado que está sendo disputado é diferente.
O que Flávio Bolsonaro consolidou
O dado mais significativo das pesquisas de março não é a liderança de Lula — esperada e consistente. É a consolidação de Flávio Bolsonaro como o polo real da disputa conservadora. O Datafolha mediu pela primeira vez o senador fluminense em um cenário nacional de segundo turno, e o resultado confirmou o que pesquisas regionais já sinalizavam: Flávio passou de aposta lateral da extrema direita para candidato com penetração espontânea no eleitorado.
Na pesquisa espontânea do Datafolha — quando nenhum nome é apresentado —, Flávio passou a ser citado por 12% dos entrevistados. Em dezembro, ele sequer aparecia. Lula foi de 24% para 25% no mesmo período. Essa é a métrica que mais importa para avaliar a força real de um candidato no início do ciclo: não a intenção de voto estimulada, mas a presença na memória política espontânea do eleitor.
O que explica essa consolidação acelerada? Três fatores combinados: a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, que transfere para o filho a fidelidade de uma base já construída; a percepção, crescente no campo conservador, de que Tarcísio de Freitas é mais valioso como governador de São Paulo do que como candidato ao Planalto; e a estratégia deliberada de Flávio de ser testado em pesquisas nacionais desde o início do ano, criando o efeito de candidatura viável que se autoalimenta.
Empate técnico a sete meses da eleição não é cenário — é ausência de cenário. O que define quem vence é o que acontece entre agora e outubro, não o retrato de março.
O recuo de Tarcísio e o problema do PSD
O governador de São Paulo, que não foi testado no Real Time Big Data desta semana, aparece recuando nos cenários do Datafolha — 21% nas simulações de segundo turno, abaixo do que registrava em levantamentos anteriores. O movimento confirma o que fontes próximas ao campo conservador já sinalizavam: Tarcísio tende a permanecer no governo estadual e disputar a reeleição em 2026, abrindo mão — ao menos por ora — da candidatura presidencial.
Isso coloca o PSD de Gilberto Kassab em uma posição delicada. O partido vinha tentando montar uma candidatura presidencial própria com Ratinho Junior, Eduardo Leite ou Ronaldo Caiado — mas nenhum dos três alcançou tração suficiente para ameaçar o eixo Lula-Flávio que se consolida nas pesquisas. Ratinho Junior aparece como o mais competitivo entre os nomes do PSD, mas ainda muito distante do pelotão da frente.
A consequência estratégica é que o PSD deve enfrentar em breve a decisão que partidos de centro sempre enfrentam em eleições polarizadas: apoiar o candidato mais próximo ideologicamente — neste caso, provavelmente Flávio — ou tentar uma candidatura própria que já nasce como terceira força em um pleito que se desenha bipolar.
O efeito Master e a janela partidária
As pesquisas de março foram coletadas em um ambiente político particularmente agitado. O escândalo envolvendo o Banco Master e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro pela Polícia Federal dominaram o noticiário nos dias anteriores à divulgação do Datafolha. A pesquisa Quaest, cuja coleta se iniciou na sexta-feira 6 de março, vai medir pela primeira vez o impacto desse escândalo nas intenções de voto — e seus resultados, esperados para a quarta-feira 11 de março, serão lidos com atenção redobrada.
O timing importa porque o caso Master envolve conexões com o campo conservador — Vorcaro teria celebrado emendas de Ciro Nogueira que favoreciam o banco —, mas também expõe a relação entre grandes financiadores e o sistema político como um todo. Em um ambiente de alta desconfiança institucional como o brasileiro, escândalos desse tipo têm efeito depressor sobre a aprovação do candidato da situação — mas raramente transferem voto de forma linear para a oposição.
Enquanto isso, a janela partidária aberta em 5 de março — que permite a deputados federais, estaduais e distritais migrar de partido até 3 de abril sem perder o mandato — já começa a produzir movimentos relevantes para o mapa eleitoral de outubro. Os próximos 30 dias vão revelar quais bancadas se fragmentam, quais candidaturas ao Senado tomam forma e como os partidos de centro se posicionam antes do fechamento da janela.


Como ler estas pesquisas — e como não ler
Pesquisas de março em ano eleitoral são instrumentos de diagnóstico, não de prognóstico. Elas respondem a uma pergunta específica: ‘se a eleição fosse hoje, com o contexto de hoje, qual seria o resultado?’ Essa pergunta tem valor analítico — ela mapeia o ponto de partida da disputa e identifica os movimentos que cada campo precisa fazer para vencer. Mas ela não responde à pergunta que muitos leitores fazem: ‘quem vai ganhar em outubro?’
Os sete meses que separam março de outubro são tempo suficiente para que candidaturas se consolidem ou implodam, para que escândalos enterrem campanhas ou sejam absorvidos pelo eleitorado, para que o cenário econômico mude a percepção de governo e para que o debate eleitoral — quando começar de fato, em agosto — reposicione candidatos que hoje parecem consolidados.
O P&G vai acompanhar cada pesquisa relevante ao longo de 2026 — não para reproduzir números, mas para analisar o que eles revelam sobre as estratégias em curso, os movimentos do eleitorado e as decisões que cada campo ainda precisa tomar antes de outubro.


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